Caio Blinder: Viva o civismo e a democracia em Israel

Caio Blinder - Especial para a TJ

Estou muito orgulhoso de Israel: o civismo da população para enfrentar o coronavírus, o milagre de relativa união política num país tão polarizado numa hora tão aflita da humanidade, o quase miraculoso pragmatismo de judeus e palestinos para batalharem contra o inimigo comum, as palmas para os heróis da saúde na vanguarda desta guerra e o estupendo capital científico do país na corrida mundial para encontrarmos tratamentos e vacina.

Falei bonito, né? Sim, e falei do fundo do coração, orgulho de ser judeu e orgulho de ser sionista. Nada disso, porém, deve me impedir de sempre ficar constrangido com Benjamin Netanyahu. Falo até sem pudor e com mau gosto, mas sua carreira foi salva pelo vírus, que forçou um arranjo político e uma coalizão de governo com a banda de Benny Gantz. E dizem que jeitinho é coisa nossa (de brasileiros).

Netanyahu, filho de um grande historiador, é um político muito cioso de história e do seu “grande” papel dentro dela. Sim, ele tem o seu devido lugar, com prós e contras. Por tempo de serviço, tem posição de honra na galeria, afinal superou os dias no poder de David Ben Gurion, o pai fundador.

Mas, sorry, a distância entre o pai fundador e o atual ocupante do cargo é descomunal. E para este político tão cioso do seu papel e de sua imagem, ficará para sempre o flagrante icônico: ele chegando ao tribunal, com a máscara de proteção contra o vírus, para o início do seu julgamento, acusado de crimes de corrupção.

Por tempo de casa, ele derrotou Ben Gurion, mas a outra proeza de Netanyahu é ser o primeiro dirigente no exercício do cargo sob julgamento.

Decoro não é o forte de Netanyahu, que se vende como um mestre de relações públicas bilíngue para o público externo. Ele tem o seu charme, mas dentro de casa é um cão raivoso e demagógico. Não existem fronteiras no seu oportunismo e mágicas para preservar o poder. Quantas vezes o seu atestado de óbito político foi lavrado. E no entanto…

Um dia após aparecer no tribunal, lá estava Netanyahu com seus ataques ferozes contra a polícia, o Judiciário e a imprensa, este “bando de esquerdistas”. Este príncipe da aristocracia sionista, adora posar de vítima e desancar as elites, ele justamente filho dileto desta elite.

Não existe medida para Netanhyau aprofundar as divisões em um país já tão rachado na política. É preciso ser muito ingênuo ou desesperado para fazer um conchavo ou selar um acordo de coalizão com ele. Ele foi capaz até de flertar com grupelhos que são a coisa mais próxima do fascismo em Israel para fortalecer o bloco direitista. O Likud, com seu comandante, nunca se desviou tanto para a direita como agora.

Netanyahu, de fato, vai longe. Falando a ativistas do Likud durante um recente discurso vitimista, ele citou um partidário, sobrevivente do Holocausto: “Você, como eu fui, é perseguido por lobos”. E Netanyahu arrematou que se sentiu muito “tocado”. Tocado por uma analogia entre nazistas e a estrutura judicial de Israel?

E de pensar que Netanyahu há 25 anos era conivente com os “lobos” que marchavam nas ruas israelenses, comparando Yitzhak Rabin a um chefe da Gestapo. A gente sabe como terminou a vida do soldado da paz.

Na sua infatigável blitz contra a polícia, a justiça e a mídia, o objetivo de Netanyahu é politizar o seu julgamento e ofuscar as acusações e evidências contra ele. Ao estilo Bolsonaro e Trump, ele consegue dissuadir o núcleo duro de partidários, alegando que os tribunais estão interferindo no processo eleitoral e que usam as acusações como cortina de fumaça para seus objetivos políticos.

E de novo as similaridades com Brasil e EUA são escancaradas. Com sua blitz, Netanhyau entra em perigosas águas políticas ao minar a confiança nas instituições democráticas de Israel e no primado da lei.

O Mágico

Ninguém pode negar as habilidades políticas de Netanyahu. Não é à toa que o apelido dele é “O Mágico”. Após três eleições inconclusivas, ele finalmente selou o acordo de união nacional com Benny Gantz, que passou boa parte do ano passado bradando que Netanyahu é uma pessoa desqualificada para exercer o cargo devido ao seu indiciamento.

Gantz quem sabe viu tudo com olhos patrióticos e considerou que com a pandemia era precisar deixar de lado o pandemônio político em Israel e criar uma frente unida contra o inimigo comum. Ademais, Gantz, ao contrário de Netanyahu, diz acreditar nas instituições e confia num julgamento justo.

Os procuradores israelenses amealharam mais de 300 testemunhas, inclusive três que já foram íntimos do primeiro-ministro e toparam acordo para aliviar a barra deles. Os casos são centrados nas alegações de que Netanyahu aceitou presentes caros de empresários ricaços em troca de favores pessoais e que ele também ofereceu a dois magnatas de imprensa benefícios regulatórios e financeiros em troca de cobertura positiva.

O guerreiro do poder promete combater as acusações e se manter no seu bunker político, sem aceitar acordo de leniência. Aos 70 anos, Netanyahu faz questão de esbanjar autoconfiança (faz parte de seu eficaz jogo de relações públicas), garantindo que esta não será sua última coalizão de governo. Na encrenca política de Israel, difícil visualizar que um dia um partido consiga maioria absoluta. Será um jogo fisiológico e a colcha de retalhos no poder pode beneficiar Netanyahu.

Para perder o poder legalmente, Netanyahu precisa ser condenado no julgamento, o que pode levar anos a fio e outras eleições. A sua próxima aparição deve acontecer em 19 de julho. Vamos ver se, na ocasião, ainda estará protegido pela máscara antivírus.

Somos plurais

Ok, não me orgulho de Netanyahu, mas sempre me orgulho da democracia, contra a qual o primeiro-ministro de plantão lança seus petardos, seja por minar instituições como o Judiciário, seja pela campanha sistemática para caluniar e tolher os direitos de 20% dos cidadãos, os árabe-israelenses.

Acho uma maravilha a maneira como se organizaram protestos contra o governo nesta era de coronavírus, com os manifestantes mantendo distanciamento social, mas ainda próximos de suas causas. Nunca me esqueço do meu espanto quando Israel manteve o calendário eleitoral mesmo em momentos de conflito armado ou de alta tensão com vizinhos.

E é por tanto me orgulhar da democracia israelense que arremato esta coluna com um desabafo como judeu brasileiro. Basta do abuso da bandeira de Israel e do povo judeu em manifestações antidemocráticas patrocinadas pelo próprio presidente Bolsonaro.

Assim, já que a palavra de ordem desta coluna é orgulho, chegou o momento de manifestar meu orgulho pelo posicionamento do comando da comunidade judaica brasileira (a Conib), ao alertar contra este abuso do uso de nossa bandeira e protestos antidemocráticos, assim como o seu repúdio a este ministro da Má Educação, Abraham Weintraub, grosso em tudo o que faz e que teve a insolência de comparar decisões do STF à Noite dos Cristais em 1938, na Alemanha nazista.

Não quero saber se este Weintraub se considera judeu ou não. Seja o que for, é um aloprado, nocivo aos interesses da comunidade judaica brasileira e ao Brasil em geral. Subscrevo as palavras do American Jewish Committee de que o repetido uso de linguagem do Holocausto por gente do governo Bolsonaro é “ofensivo aos judeus do mundo e um insulto às vítimas e sobreviventes do terror nazista”.

Para tanta gente que confunde israelenses e judeus com governos A ou B em Israel e com apoio a Bolsonaro, fica aqui o recado enfático: somos plurais.

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