Eu escrevo esta coluna numa segunda-feira, 5 de outubro. Uma eternidade nas próximas quatro semanas, até o 3 de novembro, data da eleição americana. Sem exagero, a eleição 2020 é considerada a mais importante nos EUA desde a Guerra Civil há 150 anos. Isso dá uma medida do que está em jogo. O que é importante para os EUA, é importante para o mundo.
A gente costuma dizer que pouco antes das eleições de novembro, temos a surpresa de outubro, algo que muda o rumo eleitoral. Mas, como todos sabem, todo o ano de 2020 se revela uma surpresa de outubro. Imaginem, começamos 2020 com o temor de uma guerra entre Irã e EUA. Lembram-se?
Espero que sim, pois a referência iraniana é o fio da meada para este texto. O desafio nuclear iraniano e a maneira como contê-lo é fato crucial para explicar o distanciamento não apenas de Netanyahu, mas da opinião pública israelense do Partido Democrata. Isso, é claro, aconteceu ainda no governo Obama, cuja pedra-de-toque foi o acordo nuclear multilateral e a busca de um equilíbrio entre os polos islâmicos no Oriente Médio, ou seja, o Irã xiita e a Arábia Saudita.
Aos trancos e barrancos, Netanyahu segue lá, enquanto no lugar de Obama está Trump, que, além de romper o acordo nuclear (e tudo mais o que foi costurado por Obama dentro e fora de casa), contribuiu para a aproximação de Israel com Arábia Saudita (e seus puxadinhos no golfo Pérsico).
Gostaria de deixar claro que o distanciamento entre Israel (e reitero falar da nação, mais do que do governo Netanyahu) e um dos dois grandes partidos americanos é uma tendência que vai além da questão nuclear.
Vários fatores contribuíram para este distanciamento e eu quero destacar o fosso entre a direitização política em Israel, que não foi acompanhada pela comunidade judaica americana. Esta comunidade segue firmemente ancorada no Partido Democrata, embora a gente precise ressaltar que o partido não desgalhou para uma postura anti-Israel, como foi o caso do Partido Trabalhista britânico, sob o tacão de Jeremy Corbyn, que felizmente foi enxotado.
Existe, é verdade, um núcleo militante anti-Israel no partido, mas sua importância é exagerada pelos republicanos e por Netanyahu. Na verdade, a chapa presidencial democrata (Joe Biden e Kamala Harris) é o establishment, com uma postura tradicional na política externa americana pré-Trump de apoio à solução dos dois estados e integrante de uma postura bipartidária sensível aos interesses de Israel.
Não há dúvida que existem afinidades entre o Partido Democrata e remanescentes da centro-esquerda israelense e nada mais saliente do que lembrar, agora no vigésimo-quinto aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin, dos seus laços com Bill Clinton. Nunca esqueço que Clinton costumava chamar Rabin de chaver (em hebraico mesmo). Nunca me esqueço do seu discurso no funeral de Rabin. Nunca me esqueço da raiva que ele nutre por Arafat, por ter desperdiçado a oportunidade histórica que foi o acordo de paz que mediou.
Sim, Clinton, como Obama, nunca foi com a cara de Netanyahu, este sim um rompedor de paradigma. Netanyahu entrará para a história como o dirigente israelense que violou o mandamento da política israelense de não se meter na política interna americana e sempre preservar o apoio bipartidário. Netanyahu apoiou abertamente Trump contra Hillary Clinton na eleição de 2016 e hoje é um aliado sem pudor mais do presidente republicano de plantão do que do presidente dos EUA.
A reação natural de grande parte da comunidade judaica americana foi permanecer com o Partido Democrata. Antes de mais nada, diante do flagrante partidarismo de Netanyahu. Outro ponto é que esta comunidade nem de longe se afina com a direitização da sociedade israelense. Não vou aqui fazer julgamentos sobre isso e devo reconhecer que a vizinhança ali é complicada e existem motivos de sobra para desencanto com o movimento palestino, depois das expectativas infladas que se seguiram ao processo de paz entre Rabin e Arafat.
Cada país tem suas peculiaridades políticas e vive seu momento histórico. Até consigo racionalizar, numa primeira fase, o apoio da comunidade judaica brasileira a Bolsonaro. Ela se comportou, na verdade, como amplos setores da classe média brasileira.
O apoio messiânico de Bolsonaro a Israel foi fator apenas para um pequeno grupo de judeus brasileiras. Os demais se comportaram como o resto da cidadania de classe média. Não tenho detalhes para garantir, mas imagino que a desilusão com Bolsonaro já assola a comunidade judaica e o presidente deve ter apoio apenas de alguns bolsões judaicos, para os quais a ficha não caiu ou simplesmente por realmente integrarem uma direita brucutu.
DNA judaico
Para retomar o caso americano, vamos evitar algumas comparações estúpidas entre PT e Partido Democrata. Assim, fica mais óbvio mostrar que a comunidade judaica americana está onde sempre esteve, pelo menos desde os anos 1930, quando passou a integrar a coalizão democrata costurada por Franklin Roosevelt.
E não se trata apenas da questão Israel. Esta questão não é a prioridade para a imensa maioria dos judeus americanos decidir sua simpatia partidária ou em quem votar. Os fatores internos e o posicionamento ideológico contam mais. No entanto, o DNA judaico fica mais saliente quando, na Casa Branca, está um presidente que repetidas vezes assumiu o seu beneplácito para supremacistas brancos. Eu pessoalmente não considero Trump um antissemita, mas estou à vontade para qualificá-lo de racista.
No espectro americano, os judeus são mais liberais (esquerda, no jargão brasileiro), nada radicais, mas meramente afinados com um partido de centro-esquerda como o Partido Democrata, especialmente quando tem como candidato alguém como Joe Biden.
Ê um erro falar em divisão na comunidade judaica americana no jogo político-eleitoral. A expressão polarização é mais precisa. Não é divisão na medida em que (sic) cerca de 70% dos judeus dizem nas pesquisas que irão votar em Biden. Com Trump, está a minoria composta por judeus ortodoxos e cidadãos de postura convictamente conservadora, ou seja, não estão votando tanto em Trump (tapam o nariz para tal), mas no candidato do Partido Republicano. Esta conta de 2 a 1 de judeus a favor dos democratas tem sido constante há ciclos eleitorais, com pequenas variações.
Dando um toque local, eu lembro que temos eleições também para o Congresso. No meu distrito eleitoral, em Nova Jersey, o candidato democrata à reeleição é o judeu Josh Gottheimer, que trabalhou na Casa Branca de Obama.
Lembro ainda que existe grande chance dos democratas retomarem o controle do Senado e, neste caso, o líder da maioria será o senador judeu por Nova York Chuck Schumer.
Há grandes comunidades judaicas em Nova York e Nova Jersey, mas como são estados maciçamente democratas, o voto judaico não faz muita diferença. Diferente é o caso da Flórida, um dos estados que decidem a parada e onde o voto judaico realmente pesa, mas ele segue o perfil de esmagadora simpatia pelos democratas. A chave aqui é ressaltar que fator essencial em eleição é a capacidade de cada campanha levar seus simpatizantes a votar.
Fechando o círculo, até 3 de novembro é uma eternidade, mas salvo alguma surpresa de outubro (ou mesmo de novembro), o quadragésimo-sexto presidente dos EUA será Joe Biden, com o voto e a benção da imensa maioria dos judeus americano.