Quando um papa morre, ou como mais recentemente, renuncia, a multidão em frente ao Vaticano aguarda o aparecimento de uma coluna de fumaça branca que anuncia a eleição de um novo papa. Aqui em Israel, após três rodadas de eleição sem um resultado definitivo, e o esgotamento do prazo dado a Benny Gantz para formar um governo, finalmente houve um acordo e a fumaça branca apareceu. O país viveu quase um ano e meio com um governo de transição, a crise do vírus Corona nos atingiu em cheio e foi, graças a ela, que a desculpa de criação de um “governo de emergência e de união” levou finalmente a um desfecho.
Mas na verdade pode-se dar a esse governo qualquer denominação, menos a de “união”. A maior parte do acordo trata da forma como os dois blocos vão se controlar e manter o equilíbrio entre eles, numa divisão vergonhosa de cargos que criaram 36 ministérios e 16 vice-ministérios, algo nunca visto na política israelense.
O grande feito, alardeado por ambos os líderes, é a eliminação da ameaça de uma nova eleição. Gantz obviamente se beneficia, porque estaria politicamente acabado se não conseguisse formar um governo; mas Netanyahu também temia uma nova rodada, e uma possível decisão do Supremo Tribunal, impedindo-o assumir como primeiro-ministro.
Em uma primeira etapa, Gantz e Netanyahu concordaram em não discordar: não haverá propostas para promulgação de leis que não tratem da crise do Corona, com exceção da questão das anexações na Cisjordânia (que poderá ser considerada a partir de julho) de olho numa possível mudança de governo nos Estados Unidos. A oposição já começa a articular-se para protestar, mas sem cacife para impedir eventuais decisões desse governo.
Essa é vista como a principal derrota de Gantz. Em outros aspectos o acordo é relativamente equilibrado, dando ao que sobrou do partido Azul e Branco um número absolutamente desproporcional de ministros, o que já vem gerando protestos e dissidências dentro do Likud. Naftali Bennet e Ayelet Shaked, outrora todo-poderosos, devem ficar fora do governo e perderam todo seu potencial eleitoral. Será curioso vê-los na oposição, lado a lado com Lieberman, o outro grande derrotado nesse processo.
O Likud perdeu os ministérios da justiça, da cultura e das comunicações, mas manterá o importante cargo de líder da Knesset. Já seu provável ex-aliado Bennet perdeu para Benny Gantz o ministério da defesa.
Derrota do setor laico
Numa derrota para o setor laico da sociedade, os ortodoxos continuam a fazer parte do governo, mantendo os fundamentais ministérios do interior e da saúde, uma aberração tendo em conta os eventos relacionados ao combate ao Corona no último mês. Mas aparentemente nada mais surpreende na política israelense.
Enquanto se define a divisão dos cargos políticos e a divisão dos despojos dessa batalha, a sociedade israelense vem sofrendo a pior crise econômica de que se tem notícia. Um mercado que era exemplo de pleno emprego, com um desemprego simbólico, tem agora mais de um milhão de desempregados ou cidadãos em licença sem vencimentos. O governo não foi capaz de dar uma resposta nem a eles nem aos autônomos, os pequenos empresários donos de lanchonetes, salões de beleza, pequenas lojas, artistas e uma infinidade de outras atividades, que se viram despojados de suas fontes de renda do dia para a noite. E, para complicar, segundo os críticos do manejo da crise, as recém-divulgadas medidas de afrouxamento são absolutamente caóticas, impedindo qualquer avaliação da disseminação do vírus. A própria polícia, em um documento interno, reconheceu ser impossível implementá-las.
No âmbito externo, parece que o mundo parou e que somente o Corona ainda é um problema. Os jornais e os noticiários quase não têm mencionado os palestinos, o Irã ou o Hizballah, ainda que estes continuem a representar a ameaça de sempre. O Hamas aproveita a crise para reforçar suas ameaças, declarando que se não houver respiradores em Gaza, os israelenses morrerão também em Tel Aviv. A Autoridade Palestina, assim como o Hamas, teme a disseminação do vírus, para o qual a sociedade não está preparada e que os impediria de continuar transferindo recursos para as famílias de mártires ou terroristas presos.
Os mesmos critérios têm sido aparentemente adotados pelo governo do Irã e pelo Hizballah. No Líbano, onde a organização terrorista é praticamente parte do governo, seus esforços têm sido dirigidos ao combate do vírus, especialmente após a chegada de uma série de voos oriundos do Irã, um dos países mais afetados da região, e sem que houvesse qualquer controle dos passageiros que de lá vieram. Os iranianos, sofrendo o impacto das sanções, da recusa dos Estados Unidos em aprovar um empréstimo emergencial do FMI e da queda dos preços do petróleo, tem diminuído sua atividade internacional, ainda que mantenham tentativas de transferir equipamentos para a incorporação de sistemas de navegação aos foguetes do Hizballah no Líbano e possam estar usando a crise para avançar com seu programa nuclear.
Em resumo, os próximos meses serão decisivos. Se o novo governo israelense puder trabalhar em harmonia e realmente funcionar como um “governo de emergência”, talvez o país saia da crise com um pequeno número de mortos e uma recuperação econômica que preserve a maior parte dos empregos e dos autônomos. Mas corremos o risco de sofrermos uma segunda onda, uma nova quarentena mais rígida, com um custo econômico brutal. E os palestinos, como costumam fazer, irão impingir a Israel a culpa por suas desgraças.
Escrevo estas linhas em Tel Aviv no dia de Lembrança do Holocausto e, por mais graves que sejam os problemas à vista, cabe reconhecer que somos todos privilegiados, quando comparamos as questões atuais ao sofrimento de nossos antepassados naquela época.