Memorial do Holocausto faz lives com sobreviventes da Shoá

Da Redação

O Memorial do Holocausto realizou quatro lives com três sobreviventes da Segunda guerra Mundial e um debate entre professores sobre educação da Shoá.

Na primeira da série, que atingiu mais de 10 mil visualizações, foi realizada uma live com Daniel Zukerman, Dan Stulbach, o sobrevivente do Holocausto, Andor Stern – único sobrevivente do Holocausto nascido do Brasil – e o jornalista Marc Tawil, por ocasião de Yom Hashoá, quando são homenageados os seis milhões de judeus brutalmente assassinados pelo regime nazista. “ Nesses dias vemos que o ser humano não tem controle nem da saúde, nem dos seus bens, apenas de uma coisa: o nosso espírito de vida, e os nossos três convidados hoje tem um espírito de vida maravilhoso”, falou o rabino Toive Weitman, na abertura.

Daniel Zukerman se disse muito emocionado com a ocasião. “Por mais que o assunto seja denso, quero trazer um pouco de leveza e tornar esta live orgânica em nosso bate-papo”, disse ele, que comandou a entrevista. Dan Stulbach contou a história de sua família e leu um texto de Primo Levi. “Hoje é indelicado falar dos campos de concentração. Corremos o risco de ser acusados de vitimização ou de amor gratuito ao macabro, na melhor das hipóteses; na pior, de mentira pura e simples, ou quem sabe de atentado ao pudor. É justificado esse silêncio? Devemos tolerá-lo, nós, os sobreviventes? Devem tolerá-lo aqueles que, petrificados pelo espanto e pela repugnância, assistiram às partidas dos vagões vedados, em meio a espancamentos, palavrões e gritos desumanos, e, anos depois, viram o retorno dos pouquíssimos sobreviventes, com o corpo e o espírito em frangalhos? Será justo considerar esgotada a tarefa de dar testemunho, coisa que então era sentida como necessidade e dever imediato? A resposta só pode ser uma. Não é lícito esquecer, não é lícito calar”.

Andor Stern contou como chegou em Auschwitz, aos 14 anos, e teve que trabalhar para quebrar tijolos em Varsóvia, pois os alemães precisavam do material para reconstruir as cidades bombardeadas pelos aliados. “Quando chegaram os americanos no dia 1 de maio, e fomos libertados e descobrimos que havia mais um dia para viver”. Ele contou cenas fortes que presenciou, como uma prisioneira que chegou no campo com um bebê de colo. Para salvar sua vida – já que mulheres com filhos no colo iam direto para a câmara de gás -, um prisioneiro retirou o bebê da mulher e o jogou de volta ao vagão.

História e Memória

Na segunda live, foi realizado o debate Holocausto: História e Memória, com os professores Reuven Faingold, Sarita Sarue, Ilana Iglicky e Carlos Reiss, com mediação do jornalista Jairo Roizen. Foram levantadas questões, como as diversas datas e museus que lembram este período nefasto da história da humanidade. “Prefiro falar no conceito de construção da memória, ao invés de preservação; temos também de diferenciar memória de lembrança. Enquanto a lembrança pertence aos sobreviventes, a memória pode ser compartilhada”, afirmou Reiss, que é diretor do Museu Judaico do Holocausto de Curitiba.

A professora Ilana falou sobre as visitas das escolas ao Memorial do Holocausto. “A maioria dos alunos que chega no Memorial tem pouco conhecimento sobre o assunto. Quando eles chegam, nós passamos um vídeo de sensibilização com relatos de sobreviventes, onde eles podem ver como era a vida dos judeus antes, durante e depois da Shoá”.

Sarita Sarue comentou sobre o educador Janusz Korczak, objeto de pesquisa da professora, que foi assassinado em Treblinka durante o Holocausto. “O mais interessante do resgate da vida de Korczak é a sua visão sempre à frente do seu tempo”, comentou.

Ensino do Holocausto

Na terceira live do Memorial, foi realizado um bate-papo com Thomas Venetianer, sobrevivente do Campo de Terezin e presidente da Sherit Hapleitá do Brasil. Participaram também a ex-ministra Claudia Costin e Marcio Pitliuk, cineasta e escritor que representa o Yad Vashem no Brasil, com apresentação de Reuven Faingold.

“Duas pessoas me influenciaram muito a contar minha história. Um deles é o Marcio Pitliuk, e outro foi Abraham Goldstein, da B’nai B’rith do Brasil, e hoje tenho falado cada vez mais sobre o Holocausto, até para desmentir quem insiste em negá-lo”, contou Venetianer. Por muito tempo, ele ficou se perguntando por que sobreviveu junto com seus pais, enquanto outros 28 membros de sua família foram assassinados. “Não cheguei a uma resposta exata, mas ter sobrevivido foi um presente divino, e o que fazemos com esse presente? Agradecemos. A missão que me foi designada foi agradecer de alguma forma essa benção”.

Pitliuk afirma que, nas palestras promovidas fora da comunidade, muitos não sabiam que havia sobreviventes do Holocausto no Brasil. “É um trabalho importante para se divulgar fora da comunidade. Quando não houver mais sobreviventes, é importante criarmos novas mídias, como filmes, livros, gravações e depoimentos para que esta história seja perpetuada”. Ele conta que o museu que o diretor Steven Spielberg financia em Los Angeles está criando holografias, com os sobreviventes contando suas histórias.

Claudia Costin falou sobre o ensino do Holocausto nas escolas públicas. “Quando a gente inclui no currículo este tema, ganhamos muito, pois os sobreviventes não estarão mais muito tempo conosco, por isso, é importante que se inclua como uma atividade permanente nas escolas”.

Libertação de Dachau

Na quarta live da série, foi realizada uma entrevista com George Legmann, um dos sete sobreviventes do Holocausto nascidos no campo de concentração de Dachau. Com mediação do professor Reuven Faingold,
e participação do jornalista Jaime Spitzcovsky e da professora Maria Luiza Tucci Carneiro, a live aconteceu em ocasião dos 75 anos da libertação do campo.

Faingold ressaltou que Dachau, construído em março de 1933, foi o único campo que funcionou durante todo o período em que durou o Holocausto. A história de Legmann, que nasceu em um campo anexo a Dachau, foi documentada pelo Arqshoá, no projeto Vozes do Holocausto. Seus pais tinham origem húngara e seus avós tinham uma pequena fábrica de chocolates. Toda sua família foi deportada, junto com outros 480 mil judeus húngaros, para Auschwitz-Birkenau. “Minha mãe estava grávida de mim, de algumas semanas”. Os nazistas não perceberam e ela foi selecionada para o trabalho forçado.

Maria Luiza Tucci Carneiro lembra que Dachau surgiu como prisão para quem contestava politicamente o regime nazista. Depois judeus e ciganos foram levados para o campo, seguido por homossexuais e pessoas com deficiência, que sofreram experiências pseudocientíficas terríveis realizadas ali. Posteriormente, chegaram os judeus que foram presos durante a Noite dos Cristais. “Chegou a ser construído um crematório no local, que segundo alguns historiadores não foi usado”, contou.

Spitzcovsky traçou um paralelo entre Auscwitz e Dachau. “A libertação de Auschwitz jogou luzes sobre a mais atroz máquina de matar criada pelo ser humano; por outro lado Dachau, traz para mim o aspecto da indiferença, porque foi criado em 1933, no início do regime de Hitler, que deixava claro sua ideologia demoníaca desde 1920. Dachau foi um dos primeiros sinais do que o regime nazista planejava. ”

Foram debates importantes e histórias emocionantes, que nos fizeram refletir para que situações como estas nunca mais aconteçam. TJ

Powered by WP Bannerize

Powered by WP Bannerize

Powered by WP Bannerize

Powered by WP Bannerize

Powered by WP Bannerize