Lottenberg: “Não somos um grupo de apoio a políticos”

Claudio Lottenberg

Não há como dissociar a vida de nossa comunidade da vida da sociedade maior mesmo porque somos parte dela com algumas particularidades e temos participado ativamente de sua construção em várias partes do mundo. Entretanto, no contexto de uma história milenar, um padrão de relação cultural que nasceu e se mantém dentro da religião judaica acaba se manifestando com diferentes ortodoxias. E já aqui se confere um pluralismo de entendimento para processar a fé dentro de ritos diferentes, mesmo que da mesma religião. Chama atenção como os valores judaicos conseguiram ao longo de uma história milenar manter uma postura uníssona, principalmente no campo da ética, independentemente dos hábitos religiosos. Quem sabe, por isso, o povo judeu se preocupe tanto com a formação cultural, com a prática da assistência social e com o desejo honesto de servir à comunidade. Não obstante a isso, ao longo dos séculos, nossa contribuição junto à sociedade maior sempre se fez presente e quem sabe até pelo momento da saúde, caiba registrar o papel de Maimônides, médico, filósofo e rabino que tantas contribuições trouxe para dentro e para fora da comunidade judaica e, particularmente na medicina.

A inexistência de movimentos antissemitas ou práticas discriminatórias significativas no Brasil contribuiu para a identificação geral dos judeus como brasileiros de classe média e para a manutenção de muitos vínculos que ainda ligam a comunidade judaica.

Sua presença neste país vem desde sua descoberta – pois na esquadra de Pedro Álvares Cabral haviam inúmeros judeus fugitivos das perseguições de um antissemitismo de natureza religiosa marcado pela Inquisição. Ao rastrear a presença dos judeus brasileiros, cabe aqui a observação de Anita Novinsky, que em suas pesquisas diz que um terço do sangue do nordeste brasileiro é judaico em sua origem. Fato é que, durante toda essa história, sempre tivemos um papel contributivo, mantendo um pluralismo judaico no contexto das opções políticas, que sempre respeitou as autoridades governamentais eleitas. Evidentemente que as opções individuais sempre fizeram parte, mas a comunidade se mantém unida no apoio ao Estado Brasileiro.

Entretanto isto jamais significou alinhamento de natureza automática, pois como parte de exercício democrático, o confronto de ideias tem se mostrado salutar na busca de um consenso. E por que isto é importante? Justamente porque traduz o respeito a nossa formação cultural marcado por um forte conteúdo de debate interno, mas de amplo respeito ao escrutínio democrático. Eu diria que é como uma identidade participativa coletiva e individual, que preserva o respeito à diversidade na busca do interesse comum. E quando falo de apoio, faço questão de inserir o padrão da equidistância e da proximidade, embora antagônicas, mas aqui retratadas como cúmplices de um projeto participativo. E isto é que garante a crítica aos momentos de discordância e o apoio para as boas iniciativas.

Estado de Israel

Uma das principais bandeiras de identidade judaica é hoje o Estado de Israel e assim como ele, para certos assuntos que nos são muito caros, posso afirmar existir um entendimento uníssono dentro de nossa comunidade. O Holocausto também é um dos principais temas para o qual, qualquer ofensa, qualquer minimização ou qualquer banalização atinge a todos nós.

Ao longo da história entre Brasil e Israel, mesmo considerando o importante papel de Osvaldo Aranha, nunca houve uma aproximação tão forte entre os dois estados quanto aquela que vivemos neste momento. Na posse de nosso presidente Jair Bolsonaro, esteve presente o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu e, logo em seguida, o nosso presidente foi a Israel, marcando uma de suas primeiras viagens internacionais. Jerusalém ganhou status de representatividade importante e isto é digno de registro pela sensibilidade do tema. Mas quando se fala de registro e reconhecimento, quando se considera a aproximação entre dois importantes chefes de Estado, que tem identidade com a comunidade judaica brasileira, isto não significa apoio incondicional a todas as demais linhas de ação de ambos os governos. Em outras palavras: mesmo dentro da identidade, respeita-se o pluralismo.

E esta receita que vem dado certo e tem trazido conforto no convívio de nossa comunidade: apoio com equidistância que não prejudique a liberdade do contraponto. E por que isso? Porque não somos um grupo de apoio a grupo político algum, embora tenhamos judeus identificados com distintas linhas políticas.

É fundamental que a comunidade tenha muito claro esse tipo de compreensão, pois é justamente isto que nos permite apoiar o que nos aparece como apropriado dentro da perspectiva de nossa comunidade e criticar aquilo que eventualmente não se alinhe com os nossos valores. Sei muito bem que o exercício teórico que sustenta esta tese tem natureza simples, mas reconheço também que o exercício diário desta agenda tem sido um tanto quanto complexa.
O papel de um líder é muito maior que o papel de um comandante. O líder detém o poder graças a sua capacidade inspiracional e uma certa admiração, que é fruto de seu conhecimento. O líder compreende comportamentos universais e trabalha no sentido de buscar uma convergência em prol de suas ideias. Já o comandante, em geral busca a imposição pela autoridade nominativa ou eletiva, que é temporária e muito mais limitada que a liderança verdadeira.

O povo judeu é o povo do livro e, dentro do cenário do conhecimento, vem concentrando seus movimentos focando em filosofias e em ideias, deixando os personagens dentro de uma perspectiva, temporária mesmo porque estes são passageiros. Cabe a nós como judeus brasileiros trabalhar e torcer pelo sucesso de nosso governo e continuar colaborando pela manutenção de um ambiente amistoso em nosso país e de aproximação com o Estado de Israel. O resto até pode existir, mas ele é absolutamente secundário.

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