Costumávamos todos os sábados nos locomover para Ramat Hasharon, cidade subúrbio de Tel Aviv, a fim de assistir às interessantes conferências, pronunciadas no Centro Comunitário local, pelo Dr. Itzhak Noi. O auditório estava sempre superlotado.
As conferências dele eram completamente diferentes. Ele não escolhia um tema para desenvolver e, depois, responder a perguntas, mas fazia algo completamente diferente – e daí talvez seu sucesso. Pelo visto, durante a semana, ele lia as principais notícias publicadas na imprensa internacional, em inglês, francês ou alemão.
Do noticiário, ele separava as notícias mais exóticas e extravagantes, e as lia em tom jocoso, provocando boas risadas por parte do público. Até ele mesmo ria das notícias publicadas. Mas não era uma simples leitura: às vezes fazia alguns rápidos comentários, uns até mais sérios, mas na maioria das vezes optava pelo lado hilariante.
O sucesso dele foi de tal natureza que acabou sendo convidado para fazer suas dissertações também aos sábados, das 8 às 10 da manhã, numa importante estação de rádio. E se alguém fosse dorminhoco e não quisesse acordar tão cedo para ouvi-lo, o programa era gravado e repetido aos domingos após o noticiário diário.
No último programa, ele se estendeu um pouco mais ao ler a seguinte notícia: “Ao tempo da Guerra da Libertação, em 1948, inúmeras famílias de árabes abandonaram Israel, inclusive a de uma jovem, a protagonista da estória, e foram viver no Líbano. A jovem descrita como palestina mudou-se em seguida, com a família, para outros países árabes da região”.
O que tinha esta jovem de especial, que viajou inclusive para a Europa, onde estudou em uma das melhores universidades? Embora exitosa, ela sofria por algo que muito afetava sua personalidade: não tinha uma nacionalidade definida.
A um certo momento, ela decidiu fazer uma pesquisa sobre sua família, que vivia naquela época na cidade de Yafo, atualmente parte integrante de Tel Aviv. Por uma incrível coincidência, ela descobriu que seu avô era nada mais, nada menos, que um judeu!
Culta e inteligente, e devidamente atualizada, ela achou a solução para sua questão ao constatar que na Espanha havia sido promulgada uma lei concedendo a nacionalidade espanhola aos que comprovassem serem descendentes dos judeus expulsos da Península Ibérica pela Inquisição.
Completando as buscas que fez, para sua surpresa descobriu que seu avô não era apenas judeu, mas também sefardita. Bingo!
O passo seguinte foi preparar a documentação pertinente, comprovando a sua origem. Feitos os trâmites, pagas as taxas e custas, ela foi reconhecida como tal e recebeu nacionalidade espanhola. Ademais, fez jus a um passaporte que orgulhosamente exibe.
A notícia publicada me pareceu bastante exótica. Por obra do destino, a Espanha outorgou uma espécie da Lei do Retorno, como que indenizando os descendentes de judeus espanhóis, outorgando-lhes a nacionalidade espanhola. Portugal também fez o mesmo.
Agora, faço uma pergunta: cá entre nós, e se esta jovem inteligente, dado o seus status atual como judia, decidisse fazer Aliá baseada na Lei do Retorno existente em Israel? É curioso supor o que aconteceria num caso tão inusitado. Qual seria o posicionamento do Ministério do Interior, ante tal solicitação?
Pandemia
Pus-me a imaginar se haveria um conferencista como o Dr. Noi, em outro país de nosso planeta, que também dissertasse com seu estilo. Ele estaria lendo uma notícia exótica sobre Israel, que também, como todo o mundo, está sendo assolada pela pandemia do corona.
Em tom jocoso, ele leria a notícia de que em Israel havia falecido um importante e respeitável rabino, vitimado pela Covid-19. Seu féretro foi algo incomum, ainda mais consideradas as circunstâncias, sendo acompanhado por milhares de Haredim. Uma multidão desafiando todas as regras impostas pelas autoridades sanitárias.
O referido conferencista não poderia deixar de ler, também em tom jocoso, mais uma notícia extravagante sobre Israel: a polícia fechou as sinagogas no dia de Yom Kipur, e elas foram reabertas contra a lei pelos Hassidim. Isto resultou num conflito, por milagre sem maiores consequências.
Aproveitando a deixa, o conferencista faz referência a outra notícia, sobre dezenas de milhares de pessoas protestando perante a residência oficial do primeiro-ministro de Israel, exigindo sua demissão pelo seu fracasso e corrupção.
Fico pensando: é relativamente fácil uma palestina virar judia, mas é muito difícil supor que uma judia vire palestina.