Natalie Klein Duek narra a saga de Samuel Klein

Da Redação

Este texto traz trechos da entrevista dada por Natalie Klein Duek a Sergio Simon, presidente do Museu Judaico de São Paulo, como parte da série online “As Sagas”.

Sergio Simon: Samuel Klein, figura icônica no Brasil, fundador das Casas Bahia, filantropo e apoiador da causa judaica. A nossa entrevistada é Natalie Klein, herdeira do espírito empresarial e filantrópico do avô.
Natalie Klein Duek: É uma honra, agradeço o convite do Museu Judaico para narrar a história de como uma neta enxerga seu avô. Samuel Klein nasceu em 15 de novembro de 1923, na pequena cidade de Zaklikow, Polônia. Apenas 30% eram judeus. Uma família de nove irmãos, que mudou para uma vila ainda menor, Lipa. Frequentou a escola tradicional laica. Foi a primeira sensação de antissemitismo que ele sentiu. Ao responder a uma pergunta da professora da 5ª. série, recebeu uma pedrada de outro aluno. Era tratado como “o judeu, o judeuzinho” e não pelo nome. Em 1942, os soldados entraram na casa dele e cadastraram todos. Levaram mil judeus para a sinagoga, separaram homens, mulheres, crianças e os acima de 50 anos. Foi a última vez que ele viu a mãe e alguns irmãos. Entrou no trem, foi levado para o campo de Budzin, o mesmo que seu pai. Ele tinha 19 anos. Passou fome, frio, comeu cascas de batata. A mãe e as irmãs morreram em Treblinka. Quem vai na Marcha da Vida vê o quarto 44, em Maidanek, outro campo onde ele ficou… Em 1944, ele e o pai estavam em uma dessas marchas de transporte de um campo para outro. Ele conseguiu escapar e ficou semanas andando dentro de bosques. Aí começa a história dele de libertação.

Voltou para a sua cidade na Polônia e ela não existia mais. Encontrou três irmãos que se salvaram e foram para Varsóvia, em 1946, depois migraram para Nova York. Meu avô foi para Berlim, Alemanha, montou um mercadinho, onde vendia desde aspirina, produtos alimentícios, etc… Foi juntando dinheiro até que conheceu minha avó, ela se converteu e, em 1948, eles se casaram. Ela tinha 18 anos. Em 1950, eles tiveram meu pai, Michel.

Meu avô sentia que a Alemanha ainda não era um lugar amistoso para os judeus e a primeira loja não foi para frente. Não dava para imaginar que daí sairia um grande vendedor. O pai e a irmã Ester tinham ido para Israel. Meu avô resolveu sair da Europa, não sabemos se ele sabia que estava pegando um navio para a América do Sul ou se achava que estava, de fato, indo para Nova York. Ele chegou a La Paz, Bolívia, em 1951… O país passava por uma guerra civil e o primeiro pensamento foi ter saído do outro lado do mundo para chegar em uma outra guerra… Ele sabia que tinha primos no Rio de Janeiro. Em 24 de julho de 1952, ele chegou lá. Em 3 de novembro do mesmo ano, minha avó chegou com meu pai no colo.

Ele se encantou com as belezas do Rio… Ouviu falar que as indústrias automobilísticas estavam sendo montadas no ABC paulista. Veio para São Paulo… Se estabeleceu em São Caetano. Com US$ 6 mil no bolso, comprou uma charrete, um cavalo e uma carteira de 200 nomes de clientes de uma pessoa que também viera da Polônia… Em 1958, ele comprou um imóvel, começou a se estabelecer, abriu a Casa Bahia, na Avenida Conde Francisco Matarazzo, hoje, Avenida Samuel Klein.

SS: Por que o nome Casa Bahia e por que ele insistiu no público das classes C e D?
NKD: No ABC havia muitos baianos trabalhando na área automobilística. Todo mundo que vinha do Nordeste era baiano… Ele focava no público C, D e E… Pessoas que não tivessem carteira assinada, renda recorrente. Dizia que o que as pessoas mais pobres tinham era o nome digno, então, o que elas mais honravam era esse nome. A Casas Bahia desenvolveu um método de crédito copiado no mundo inteiro, com nenhuma grande técnica, Meu avô tirou da cabeça dele que, para terem aprovação de crédito, as pessoas tinham que responder só algumas perguntas simples e objetivas sobre suas vidas, para saber se elas não estavam mentindo… Criou uma empresa baseada no crédito, na confiança.

SS: Ele voltou à Polônia alguma vez para rever os lugares onde tinha vivido? E qual era o sentimento em relação a Alemanha?
NKD: Ele nunca voltou para a Alemanha, não queria voltar para nada que remetesse a essas memórias… Tinha um amor pelo Brasil… Falava: “cresci com o Brasil, não fiquei parado vendo o Brasil crescer”.

Na matriz, em São Caetano, a família inteira trabalhou no quarto andar do prédio: meu tio, meu pai e meu avô. Ele descia na loja várias vezes ao dia… Via alguém olhando um produto e dizia “você não tem geladeira, pode levar”. Gerava pânico quando meu avô descia. Ele pegava os carnês e assinava, como se fosse um autógrafo. “Você vai no caixa e seu carnê está quitado.” E ele fazia isso com muita frequência e as pessoas tinham uma gratidão enorme.

A gente perguntava se ele tinha noção de quão rico ficara, pois continuou com seus costumes muito simples, andando de chinelos, com as camisas polo que usava sempre… A visão do seu negócio era como se estivesse na primeira loja e tivesse a necessidade de todos os dias sobreviver e começar do zero.

SS: Fale da família.
NKD: Meus avós tiveram quatro filhos: Oscar, Eva, Saul e meu pai, Michel. Moraram em São Caetano, depois na Aclimação, em São Paulo. Meu pai e meu tio fizeram faculdade de Administração e foram trabalhar na Casas Bahia muito cedo. Um na área comercial, outro na financeira. Mas meu avô à frente. Em 1973 nasceu meu irmão Leandro e, meses antes de eu nascer, em novembro de 1975, o filho mais novo, Oscar, faleceu em um acidente de carro. Talvez, esse tenha sido… o pior baque da vida dele. Eu nasci em 28 de dezembro, um mês e meio depois.

Minha vó trabalhava junto com ele, na confecção de moda… Minha tia Eva mudou para os Estados Unidos; Leandro e Rafael estudaram lá, em faculdades. Meu irmão mais velho faleceu em 2001 e também foi uma grande perda… Na minha família, grandes conquistas de um lado e grandes perdas do outro.

Quando aconteceu a fusão (com o Grupo GPA)…. ele começou a falar mais da vida dele, principalmente, do legado que ia deixar… O legado tangível são as lojas, as contas no banco. Eu e Rafael nos voltamos para a maior preocupação dele, que era quem vai cuidar desse legado filantrópico, intangível, construído pelo meu avô. Posso afirmar que ele foi um dos maiores filantropos, sempre discreto. Ao receber uma homenagem na Unibes, das poucas vezes que aceitou, ele falou uma coisa simples: “doar é muito fácil, porque o bolso é perto do coração”.

Ele tinha profunda ligação com Israel. O logotipo e as lojas da Casas Bahia eram azul e branco, por conta da bandeira de Israel. Colocava mezuzá em todas as lojas. Ele tinha uma sensação de pertencimento e que a nossa vida tinha que ser para cuidar da comunidade.

SS: Conte sobre o Instituto que você e seu irmão fundaram em homenagem ao seu avô.
NKD: Em 2014, quando meu avô estava muito doente, eu e Rafael nos entendemos responsáveis pelo legado intangível dele. Quem ia continuar contando essa história, quem ia assumir várias responsabilidades que ele tinha. Sinagogas, escolas, em São Paulo e no Brasil inteiro, eram criadas e ajudadas pelo meu avô. Nesse ano, a gente fundou o Instituto Samuel Klein para que essa história não se perca. Nossa premissa é aportar em projetos já existentes. Havia um portfólio de doação, uma feira filantrópica. Tentamos mapear qual era a área de recorrência maior que ele fazia e entendemos que era a da educação e da tradição e cultura judaica.

Até hoje, carregamos os óculos dele, símbolo máximo do Instituto, pela disciplina de olhar esse mundo através do olhar dele. Fazemos esse exercício para imaginar o que e como ele faria. Temos vinte projetos rotativos no portfólio. A gente vem de uma geração que poucos sabem o que foi o Holocausto, os sobreviventes, aos poucos, estão indo embora. Ouvimos essa história do meu avô e ela não pode acabar na minha geração, na dos meus filhos, só no meu núcleo. Por isso a importância do Museu, do Centro de Memória, para manter a nossa história viva.

SS: Fale o que ficou da imagem dele, no Instituto e na sua vida, na sua atividade.
NKD: Quem teve um mentor como meu avô, certamente, teve o maior direcionamento balizador da vida. Tenho uma placa da mesa do escritório dele, que ficava virada para quem sentasse ali: “Nunca traia a confiança”… Tivemos uma vida muito normal, simples, com tudo que precisava, porém sem excesso, sem ostentação. Meu avô trouxe essa humildade do ser humano… Foi isso que ele deixou de grande lição: acreditar no potencial humano das pessoas. Essa semente judaica é irreversível. Deixou os valores judaicos que muito me norteiam e ao meu irmão, meu grande parceiro. Sabemos quanto somos responsáveis pelo caos que vivemos, somos ativamente envolvidos no Terceiro Setor, muito por influência dele.

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